quarta-feira, 19 de maio de 2010

Life sucks, and then you die - Parte I

Favor ler o texto anterior antes de ler esse.

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mais um dia. mas um maldito dia. não que eu ache que a vida é uma merda, realmente não, mas eu digo que ela é um saco. como diria The Fools 'Life Sucks, And Then You Die'. mas eu não tenho nenhum desejo suicida, acho que terminar a propria vida é uma atitude muito, para não dizer emo, de frufru. logo, não querendo ser mais um dos cortadores de pulso, eu vivo de acordo com a musica. life sucks and then you die. essa eu considero uma bela frase. uma verdade até certo ponto. todo dia minha rotina é a mesma. todo dia durmo no mesmo horário, acordo no mesmo horário, me arrumo da mesma forma, vou para o colégio da mesma forma, passo o dia da mesma forma e vou dormir da mesma forma, no mesmo horário. confesso que a maior variação que ocorre no meu dia-a-dia é a mudança de horários da aula. que animador.
honestamente eu achava que as coisas iam mudar. nunca fui de ter muitos amigos, não me dou bem com pessoas, e honestamente não me importo. mas eu tinha esperança, sabe? eu achava que depois que a escola acabasse e eu finalmente fosse pra universidade o mundo seria um lugar melhor, e eu marquei a entrada na universidade como o momento de mudança da minha vida. com tudo planejado, estudei, estudei como um puto (não que eu ache que putos(as) estudem muito, é apenas uma expressão). no dia, tudo pronto, preparado, alimentado, estava pronto para fazer a prova.
uma das coisas que eu mais considero que foi uma falta de azar foi ele ser da minha sala. aquele menino loiro desgraçado que tem um serio problema de superioridade. não há um motivo explicito, como eu rapidamente percebi, ele apenas criou o objetivo na vida de ser o cara mais filho da puta possível. sempre tentei dar o mínimo de atenção à ele, talvez assim ele fosse embora, mas não, ele tem que testar limites, tem que ver até onde eu vou. filho da puta.
no dia da prova entrei na sala, pronto para fazer aquela prova e me livrar de tudo, partir para uma nova vida, mas, assim como diz a musica, life sucks. ele era da minha sala. ELE! no momento em que eu entrei na sala eu senti que ele percebeu minha presença. quase como um leão farejando sua presa, ele lentamente se virou em minha direção, e no momento que nossos olhares se encontraram ele deu um sorriso. um sorriso de um leão prestes a se alimentar.
eu empalideci na hora. como era possível?! o que eu fiz de ruim na minha vida pra eu merecer algo assim? OQUE? ele veio devagar, sem pressa, sabendo que eu não ia a lugar nenhum. fez questão de ficar incrívelmente perto de mim e olhar pra baixo (maldita genética). senti seu bafo nauseante enquanto ele falava. nem cheguei a prestar atenção no que ele falava. provavelmente nada do que ele estava falando iria melhorar em nada quem eu sou ou porque eu estou aqui, mas, na precaução resolvi prestar atenção no que ele falava. olhei pra cima, e, para minha total e completa surpresa, ele sorria. não o sorriso de leão, um sorriso... humano?! ele perguntava como eu estava, se eu estava pronto pra prova. dei apenas respostas monossilábicas. no final ele apenas sorriu novamente e me deu uma abraço. UM ABRAÇO! eu não espero que você acredite, eu pessoalmente não acreditei. mas então ele me desejou boa prova e foi para seu lugar que era do lado do meu. ainda abismado fui para meu lugar e me sentei. acabou que o dia havia começado melhor do que eu imaginava. 'quem sabe hoje realmente marca um dia de mudança na minha vida' pensei.
o fiscal então entregou as provas. recebi a minha otimista, havia estudado como nunca, então estava bem confiante. comecei a prova, a maioria das questões era bastante fácil e eu respondi rapidamente, já na metade da prova começou a parte de exatas, que era a parte que valia um maior peso pra meu curso, e a mais importante. 'ok' pensei 'vamos lá'. fui então tentar pegar minha calculadora no meu bolso direito. não estava lá. 'talvez o esquerdo?'. nada. 'caralho, cadê minha calculadora?!' pensei. já em desespero, comecei a procurar em todos os cantos. em baixo da mesa, da cadeira, nos bolsos da calça. nada. mas eu jurava que eu estava com ela. foi quando ouvi um 'pss' vindo do meu lado, e lá estava ele. o menino loiro balançando minha calculadora e olhando para mim com um sorriso. agora não mais o sorriso humano, o leão havia voltado, e dessa vez ele já estava com o sangue nos dentes.
eu fiquei completamente sem reação, já que basicamente eu literalmente não tinha o que fazer. não podia chamar o fiscal porque ele não acreditaria e material não pode ser emprestado. não podia saltar em cima dele porque não daria em nada, e eu levaria um boa surra. olhei para ele com um olhar de morte, um olhar que eu nem sabia que era capaz de fazer. o olhar de que você não deseja só a morte da pessoa, você deseja o sofrimento eterno.
e ele se divertia como sempre. olhava pra mim se contendo para não rir da minha cara. quando escapou um sorrisinho ele se conteve e voltou a prestar atenção na prova. fiquei encarando-o por uns bons 15 minutos. o fiscal então começou a estranhar e voltei minha atenção para a prova. cada calculo mais difícil que o outro. números com 6 casas decimais me encaravam quase que me desafiando. 'como diabos eu vou fazer isso sem calculadora PORRA?!!' pensei. tentei respirar fundo, contar até dez.
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.
o relógio ia passando enquanto eu me matava para fazer cada questão boba. a cada batida do relógio eu ficava mais desesperado.
o fiscal então anunciou que faltavam apenas 15 minutos e que quem havia terminado podia sair. 'como assim 15 minutos?! não.' pensei em desespero 'eu ainda tenho quase 1/4 da prova pra fazer, não dá tempo!'. já que não dava, fui tentar chutar todas as questões, estava começando a pensar quando lembrei que, poxa vida, ainda não havia passado as respostas pro cartão.
comecei a suar frio e a tremer. 'e agora? o que eu faço?!'. e, como era de se esperar, Ele resolveu por a cereja no bolo.
enquanto o fiscal se distraia recebendo as provas, o menino loiro veio do meio lado e cochichou no meu ouvido 'acho que você vai precisar disso', colocou a calculadora gentilmente em cima da minha mesa e saiu me dando um tapinha nas costas.
a raiva me consumiu, joguei minha mesa para o lado e saltei nas costas dele. com a vantagem da surpresa consegui acertá-lo umas boas vezes antes dele tomar o jeito. ai eu tava fudido. ele me segurou e me jogou na parede me dando um soco assustadoramente forte na minha boca do estômago. provavelmente eu só sai inteiro daquela sala porque o fiscal rapidamente se pôs no meio da briga e nos levou para uma outra sala.
por culpa do soco eu não conseguia respirar direito. na sala para onde fomos levados, nos mandaram sentar de um lado de uma mesa. eu ainda tremia de raiva quando um homem de terno entrou na sala e se sentou na nossa frente. ele explicou que, por causa de nossa "brincadeirinha" nossas provas seriam anuladas. eu não me importei, eu não entraria de qualquer jeito, mas o menino loiro se importou, até bastante, e começou a gritar com o homem engravatado. falava que era um absurdo, que a culpa não era dele, que eu havia começado tudo e mimimi. quando ele começou a mostrar sinais de agressividade, o homem de terno chamou um segurança que nos arrastou para fora do colégio onde estávamos fazendo a prova.
eu olhei para ele com um sorriso de felicidade, afinal ele havia me feito perder a prova, e eu havia feito ele perder a dele. ele se virou para mim. eu vi a cara de raiva dele. ele viu meu sorriso. eu vi o punho dele na minha cara.

acho que nunca na minha vida eu apanhei tanto. nem tenho muitas memórias da "briga" em si, apenas lembro de acordar no hospital. minha perna estava engessada, minha cabeça enfaixada e meu corpo inteiro roxo. senti algo estranho no meu rosto e quando toquei percebi que havia um ponto enorme fechando uma cicatriz que pegava boa parte da minha maça do rosto. cada movimento doía.
o medico entrou e olhou minha ficha, depois olhou para mim. 'pegaram pesado em você, não meu filho?'. odeio que me chamem de "meu filho". respondi com uma pergunta 'o que houve com ele?'. 'ele quem?'. 'o cara que "pegou pesado em mim"?'. 'chamaram a policia pouco depois que a comoção começou, conseguiram parar ele a tempo de você ter seqüelas mais sérias'. 'ele onde ele está agora'. 'eu não sei direito, ouvi uns policiais comentando que ele havia pagado a fiança, mas não sei se é isso mesmo'. fiquei em silencio. o que havia para se dizer?. reclamar que ele conseguiu escapar?. isso eu sabia que ia acontecer. então não fiz nada. o medico percebeu que eu não tinha nada mais a falar e desculpou sua saída falando alguma baboseira que tinha que ajudar uma mãe que o filho tinha perdido a memória ou algo assim. continuei não falando nada.
meus pais nunca se importaram muito com a minha situação, tanto fisica quanto emocional. eles tinha a idéia de que a escola que iria me criar, então enquanto eles pagassem-na, eu estava ótimo. não me impressionei ao chegar em casa, meu pai me ver como eu estava, e perguntar, apenas por protocolo, o que havia acontecido comigo. disse a desculpa mais clichê possível tentando ver se ele se importava um pouco dizendo que havia "caido das escadas". ele apenas me disse para tomar mais cuidado e voltou a ler o jornal. típico pai.
durante o resto das ferias eu fiquei basicamente em silencio. apenas dizia frases protocolares pro meu pai/mãe como bom dia e afins.
perto do final das ferias, depois de um longo banho me olhei no espelho. minha perna ja estava melhor e funcionava tão bem quanto antes, meus hematomas já estavam quase todos ausentes. eu já estava, pode se dizer, perfeito. se não por uma coisa. a cicatriz. ela me encarava toda vez que eu me olhava no espelho. um lembrete no mínimo. todo dia comecei a então me olhar no espelho e me lembrar.
mas um dia eu comecei a perceber o que estava acontecendo comigo, eu estava me tornando obcecado, ficando louco com a idéia de vingança, e isso não estava dando certo. resolvi então que, mesmo eu não tendo passado para a universidade, eu iria começar a mudar minha vida. arrumei meu cabelo, comprei roupas novas, me arrumei completamente para o primeiro dia de aula do cursinho.
ônibus nunca me deixam feliz. eles são no geral sujos e lotados, mas naquele dia, com o otimismo vindo de todos meus poros, nem isso me irritava. esse seria um novo dia. o primeiro dia de vida do novo eu.
sai do ônibus desejando bom dia para a velhinha mau humorada do meu lado e andei em direção ao cursinho. cheguei na sala, escolhi um bom lugar e me sentei, pronto para começar um novo capitulo em minha história.
como eu havia chegado bastante cedo, comecei a ler um livro. nunca fui de ler livros, mas o eu 2.0 achava-os o máximo, mesmo só tendo livro os livros imbecis da escola. perto da pagina 20, senti uma mão no meu ombro. nem precisei me virar para sentir aquele cheiro. o cheiro do leão. e lá estava ele, o menino loiro olhando para mim com um sorriso obviamente falso. suspeitei que ele tramava alguma coisa, porque mais ele estaria sorrindo assim? foi quando olhei pro lado e vi ela.
nunca me apaixonei, sempre achei isso uma coisa de filmes de menininha. tentei sempre consolidar em minha mente a idéia de que algum dia eu iria me dividir por mitose e surgiria um filho meu. mas aquele momento me provou o contrario.
era provavelmente o ser mais lindo da face da terra. cabelos lindos, pele perfeita, olhos azuis. enfim, a mulher ideal.
amor a primeira vista? não sei, mas ela definitivamente tomou minha atenção.
o menino do cabelo loiro começou a forçar comigo da mesma maneira que forçou no dia da prova. mas eu não fiquei irritando, comecei a babar e tentei arrancar a garganta dele no dente. não. eu só conseguia olhar para ela. ele percebeu e a trouxe para perto e nos apresentou. me movi muito mecanicamente enquanto nos aproximávamos para dar o tradicional beijinho de cumprimento e senti provavelmente o cheiro que nunca vou esquecer. ele então se despediu e começou a ir embora com ela. fiquei encarando-a enquanto os dois se afastavam e ele percebeu. avisou para ela que ia falar comigo "rapidão" e já voltava. ele veio então bem perto de mim e da mesma maneira que no dia da prova cochichou em meu ouvido 'bonita ela né?'. me limitei a simplesmente concordar com a cabeça. 'então, ao menos pense em chegar perto dela, só pense, que eu vou te dar muitas dessas cicatrizes ai desse seu rostinho' e me deu um tapinha dolorido na minha cicatriz, se despediu com um sorriso e voltou para ela.
fiquei paralisado enquanto eles iam para seus lugares.
não consegui prestar atenção em nenhuma aula no resto do dia. eu apenas fiquei me perguntando porque. porque, justamente quando eu estou pronto para fazer a mudança na minha vida ISSO acontece?! PORQUE?! eu não entendo. não entendo mesmo.
no final da aula levantei devagar, todo mundo ja havia saido da sala. fui, sem pressa em direção ao portão de saída, subi as escadas e dei de cara com os dois. eles apenas conversavam. ele percebeu que eu os encarava e começou a se pegar com ela. mas não se pegar namoradinhos de 12 anos. não. começaram a se pegar como animais. ele não se importava o quão publico era o lugar onde eles estavam, mas se dava ao trabalho de tentar tocar ela por completo. e ela deixava.
fiquei olhando essa cena. quando ele percebeu que já tinha feito deu ponto, eles se separaram do corpo único que haviam formado e foram em direção ao carro de filhinho de papai dele. ele se virou e se limitou a dar uma piscadela para mim enquanto colocava a mão na bunda dela.
eu não tinha palavras.
eu não tinha pensamentos.
decidi não pegar o ônibus para casa, não aquela coisa suja e nojenta, fui andando.
o caminho era gigantesco, eu sabia, mas não me importava.
fui quieto, sem nenhum pensamento na minha mente. esvaziei-a por completo com medo que se eu realmente fosse pensar no que havia acabado de acontecer algo daria muito errado. então assim eu fui. no silencio, no vazio e na solidão.
algo tomou minha atenção, barulho de sirenes de policia vinham de todas as direções e supus que algo estivesse acontecendo. olhei para os lados e não vi nada, quando me virei um homem correndo esbarrou forte comigo. fui jogado à distancia me ralando pouco. do lugar onde eu estava eu pude ver toda a comoção que acontecia. o homem estava caido no chão com um olhar vazio como se procurando algo dentro de si mesmo. a policia apareceu gritando e apontando armas para ele falando para ele soltar a que ele (assim como eu fui perceber só naquele momento) estava segurando. o homem parecia perdido (ou como se tivesse perdido algo), e, para minha surpresa e espanto, ele se limitou a simplesmente colocar a arma na boca dele e atirar.
sangue voou para todo o lado, eu fiquei imóvel olhando toda a cena acontecer. 'o que diabos acabou de acontecer?!' me perguntei. 'apenas a ordem natural das coisas' uma voz desconhecida me respondeu. isso me pegou de surpresa. havia alguém perto de mim? olhei em todas as direções. nada. 'levante e saia daí' disse a voz. num primeiro momento eu fiquei aterrorizado ao perceber que a voz vinha da minha cabeça, mas ela me acalmou. não foi difícil. ela era tão bonita, tão macia, tão...


perfeita.



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Iago Schütte

domingo, 16 de maio de 2010

Amnesiac

Acordei. eu sentia como se eu literalmente não tivesse forças pra viver, o que é uma pessima sensação. esta tudo incrívelmente absurdamente claro e branco. não sei quem foi a péssima alma que teve a idéia de fazer um lugar que tende a ficar incrivelmente claro e pintá-lo todo de branco, isso não se combina. mas enfim, eu tinha coisas mais importantes com o que me importar no momento (haha, adoro essas situações de palavras iguais. caham.). primeiro, onde estou? bem, obviamente estou no lugar mais claro da terra, mas isso não exatamente me ajuda. próxima pergunta. o que estou fazendo aqui? bem, até onde eu vejo eu estava dormindo, e um sono bem profundo vale a pena acrescentar, sentia como se minhas pernas ou braços não houvesse sido mexidos a um longo longo tempo. bom, ainda não respondeu muita coisa, mas melhor que a resposta do lugar branco. bem, o que mais me perguntar? na minha situação de cegado pela luz e atordoado e fraco, não tem muito o que eu possa me perguntar com relação ao exterior. então vamos começar pelas perguntas básicas, fáceis de se responder. comecei a me perguntar, e pergunta após pergunta eu simplesmente não conseguia responder. comecei a entrar em pânico. onde eu moro? não sei. qual é o meu nome? não sei. de onde eu vim? não sei. ... . quem sou eu?
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não havia nenhum som. ninguém falava nada. não era um daqueles momentos em que se coloca uma boa musica e se dança comemorando a boa colheita. era um daqueles momentos em que, simplesmente, não havia o que se dizer. minha mãe dirigia o carro segundo o volante hora com uma rigidez incrível, outra quase que o soltando, o que honestamente me preocupava. se fosse pra eu morrer que não fosse num acidente horrendo de carro.
silencio.
olhei pra minha mãe e tentei decifrar a(s) emoção(ões) que se passavam em seu rosto. ela estava em um momento com uma cara de raiva como se fosse espancar o próximo coitado que passasse na frente dela, ao mesmo tempo que uma corrente de lágrimas escorria por seu rosto.
silêncio.
sim não era uma situação pra se bater um papo sobre futebol ou contar uma piada, mas eu não aguentava mais aquele silencio e eu sentia que se eu não falasse algo logo minha mãe abriria a porta e se jogaria do carro.
comecei a tentar abrir uma comunicação. 'mãe, eu...'. 'não filho! não... não...'. 'mas mãe, eu acho que a gente...'. 'filho... só... não...'. e ficou por isso mesmo. ela se controlava para manter o olho na estrada, mas toda vez que paravamos em um sinal ela abaixava a cabeça e chorava.
durante todo o percurso de volta pra casa do hospital eu não falei mais nada. achei que era pra melhor.
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pouco a pouco eu consegui me adaptar à luz absurda daquele lugar e as coisas passaram de borradas para levemente definidas. estava deitado de costas olhando pra cima. tentei levantar minha cabeça pra encontrar meu queixo no meu peito mas não tinha energia nem para isso. fiz o esforço de então olhar para os lados. a minha esquerda havia em cima de uma estante uma cesta com vários balões presos a uma cesta com varias coisas que não conseguia identificar já que minha vista continuava borrada. voltei minha cabeça pra cima e tentei fechar os olhos para tentar novamente refletir sobre o que diabos estava acontecendo. quem sou eu? não sei. quemsoueu? não sei. QUEM SOU EU?... não sei...
percebi então que estava com sede, muita sede. nesse momento ouvi passos ao meu lado. abri os olhos e virei minha cabeça. uma mulher com uma roupa rosa estava do meu lado mexendo em umas gavetas. juntei o máximo de forças que eu pude e falei 'água...'. minha voz saiu incrivelmente fraca, tanto que fiquei surpreso quando a mulher se virou e pareceu surpresa ao me ver. não entendi porque. pedi novamente agua. ela, agitada, começou a olhar as telas que só então percebi que estavam a toda a minha volta, olhou pra mim, me pediu para esperar e saiu correndo da sala. continuei parado, olhando pra cima. não estava conseguindo pensar, só tinha em mente o fato de que eu realmente estava com muita sede.
comecei a ouvir uma agitação e quando olhei um cara vestido completamente de branco estava entrando na sala acompanhado da mulher de rosa e de uma outra vestida com uma roupa normal jeans e camiseta.
o medico chegou ao meu lado e, assim como a mulher de rosa, começou a olhar as telas enquanto a mulher de rosa me dava agua. bebi alegre. era mais difícil engolir do que eu imaginava, mas deu certo. depois de tomar até a ultima gota a mulher de jeans veio rapidamente até mim e começou a me abraçar. o abraço era realmente forte. ela então me soltou e começou a me olhar e a falar como era um milagre eu estar vivo, que ela me amava, que ela nunca perdeu a fé, que ela sempre soube que tudo daria certo e me abraçou de novo. dessa vez mais forte. depois ela me soltou e me olhou nos olhos. eu só tive forças para perguntar 'quem é você?'.
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chegamos em casa. nenhuma palavra. saímos do carro. nenhuma palavra. subimos o elevador, entramos em casa. também nenhuma palavra. quando já dentro de casa, depois de fecharmos a porta, minha mãe pulou em cima de mim, me abraçou forte e começou a chorar. eu simplesmente a abracei de volta e ficamos assim por um longo tempo.
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'o que você disse?' a mulher me perguntou. eu juntei forças e disse outra vez 'quem é você?'. ela ficou pálida e continuou me encarando por alguns segundos quando percebi que ela estava chorando. ela ficou de pé rapidamente e saiu da sala. o medico saiu atrás dela enquanto a enfermeira continuava lendo uma prancheta. olhando para a direita havia um vidro que permitia ver o lado de fora da sala. vi a mulher e o medico. a mulher chorava de cara para uma parede com as mãos encolhidas no rosto enquanto o medico tentava acalma-la. como gastava muito da minha pouca energia ficar acordado vendo essa situação toda, simplesmente ignorei tudo e voltei a dormir
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eu estava tão preocupado quando ela, é claro, mas eu tentava manter a calma, sempre me considerei uma pessoa otimista que tenta manter o bom astral na situações mais adversas. depois de um bom tempo abraçado com minha mãe, guiei-a até o sofá onde sentamos um ao lado do outro. tentei conforta-la falando que ia dar tudo certo e ela me indagou 'como você pode ser tão otimista numa situação dessas?!'. 'eu simplesmente sei que ficar sofrendo não resolve nada' eu respondi. 'mas filho....' ela respondeu 'você ouviu o que o doutor disse! como você consegue ficar... feliz?!'. respirei fundo e comecei minha resposta 'eu não estou feliz mãe. ninguém em sã consciência ficaria feliz numa hora dessas. eu apenas não estou triste.'. 'filho, o médico disse que você pode muito bem daqui a duas semanas ter um derrame e entrar num coma ou ,pior ainda, morrer, e você não fica triste?!'. 'honestamente mãe. eu não fico. porque eu não tenho porque ficar triste. eu aproveitei bem a minha vida. não me arrependo de nada que fiz. aproveitei o que tive para aproveitar'
tentei um sorriso otimista, mas minha mãe simplesmente me abraçou novamente e voltou a chorar.
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Ta tarde, depois eu dou um jeito de terminar. boa noite.


Iago Schhütte - feels like spinning plates

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Cosmo-agonia Parte 1

era um dia normal no nada. o nada fazia nada. e o resto do nada também continuava em uma inércia completa. nada.
do nada surgiu algo, esse algo fez um barulho fudido, na verdade eu não sei se voce poderia dizer que houve um barulho, tanto porque som não se propaga pelo nada, e tambem pelo simples fato de que não havia ninguém ali que pudesse falar 'uau, mas esse foi realmente um som alto. macacos me mordam'. mas dizem as más linguas que foi um barulho fudido, e na falta de qualquer evidencia do contrario, diremos que houve, no final de contas, um puta de um barulho.
depois do barulho, veio o silencio. os primeiros vestígios do algo começaram a ocupar o lugar que o nada antes ocupava e a juntar ali coisas cada vez maiores. o nada, obviamente não gostou, mas não havia nada que o nada pudesse fazer. e se voce for pensar bem, se não havia nada, não tem como o nada ter perdido algo, ja que literalmente não havia algo. após chegar a essa conclusão acalmante o nada foi para a sala e pegou sua xicara de nada e tomou um chá inexistente.
enquanto o nada se exaltava com seu magnifico chá de nada, o algo estava ativo, se empolgando cada vez mais. pegava uma nuvem de algos aqui, juntava com uma grande bola de algos dali, e do nada (ou do algo, não sei, sinonimos me fogem) os algos entravam em chamas e ficaram mais claros que, bem, não se sabe, era primeira vez que algo brilhava como aquilo desde que o algo surgiu fazendo um tremendo barulho (ou não).
em volta das bolas brilhantes de algos começaram a se formarem nuvens de algos. os algo nas nuvens começaram a se juntar. quanto mais algos ficavam juntos, mais algos queriam se juntar ao grupo. e aos poucos foi se formando um grande algo, não tão grande quanto o grande algo brilhante, mas um algo bonito.
ok, a verdade seja dita, essa bolinha de algos era uma absurdamente, estonteante, assustadoramente e imensamente inutil e desprezivel bolinha. incandescente, malfeita e sem graça. mas bem, o algo resolveu continuar seu trabalho, e depois de decepcionado com a bolinha inutil, resolveu fazer algos mais maravilhosos ainda, mais gigantescos que a grande bola gigante brilhante de antes. mais brilhante que o brilho da grande bola brilhante. o algo basicamente se entreteu se superando.
e assim, devagar e sempre o tempo passou e, em meio ao belo trabalho feito pelo algo, aquela bolinha inutil perto da agora insignificante bola brilhante começou a ficar diferente, o que atraiu a atenção do algo. a bolinha agora não era mais uma grande coisa incandescente, era uma grande poça d'agua, com um pouco de terra aqui e ali. o algo ficou abismado com o twist que houve naquela historia. 'quem imaginaria que isso viria a acontecer?' peguntou o algo para o nada (no sentido de nada nada mesmo, e não o nada do nada de antes do algo, capisce?). mas então o algo sentiu algo estranho da superfície da bolinha, uma presença que ele não sabia explicar direito, mas ele foi se aproximando, se aproximando, cada vez mais até ficar quase dentro da agua, vendo tudo em seus minimos detalhes. não havia nada, apenas agua. 'uau, que surpresa' pensou o algo quando prestes a sair da agua algo tomou sua atenção. algo minusculo, quase imperceptivel, nadando em meio as turbulentas aguas do planeta bolinha.
o algo foi então examinar de perto a coisinha.
era interessante. ou nem tanto. mas era fascinante no minimo. era basicamente uma bexiga com um monte de coisas dentro.
a coisinha rodava, piruteava, flopava, uilomeava, tudo em uma imensa diversão, como se estivesse acabado de aprender a, bem, 'ser'.

'haha', pensou o algo, 'isso vai ser divertido'

quarta-feira, 14 de abril de 2010

death and all his friends

num súbito baque acordei. pelo susto de simplesmente ter acordado depois de tanto tempo inconsciente comecei a tentar olhar em todas as direções ao mesmo tempo, o que, obviamente, não deu certo. e um dos principais motivos por não ter dado certo foi porque a luminosidade era tão absurda que eu senti minha retina pedindo desculpa por qualquer coisa que ela pudesse ter feito. gentilmente acalmei-a, falando que ela era uma boa retina e dando-a um biscoito imaginário. minha íris, querendo também um agrado, fez a gentileza de, talvez devagar demais, se contrair. lentamente eu consegui ver tudo certo. o lugar em que eu estava era relativamente chato. imagine uma grande sala de espera de aeroporto, onde não há absolutamente nada para se fazer, mas o barulho é tão grande que você não consegue ouvir sua musica. (para minha surpresa fui perceber que meu iPod que estava comigo agora a pouco havia sumido). pela janela não havia nada para se ver, só o forte clarão.

o lugar em si era absurdamente gigantesco, era tão grande mais tão grande, que... na falta de uma metáfora melhor... parecia um... que dava pra... esquece, era grande. era basicamente composto por cadeiras e mais cadeiras onde pessoas e mais pessoas estavam sentadas. algumas conversando, algumas tentando dormir, e outras simplesmente assustadas por algum motivo. não havia nenhum lugar disponível então resolvi dar uma volta. por toda volta haviam lojas de duty free fechadas com uma placa na frente dizendo 'volto em 5 minutos', mas pela quantidade de poeira nas portas, suponho que o vendedor tenha se perdido entre as fileiras 23² e 24².

por todo lado haviam vários daqueles telões que mostram os vôos chegando. interessantemente, haviam uns azuis e uns vermelhos. sem aparecer nada. fiquei encarando os telões esperando algo acontecer, mas em como toda boa situações cômica, nada aconteceu. simplesmente me virei, apenas para perceber que varias outras pessoas estavam fazendo o mesmo. simplesmente paradas, encarando a tela. em algumas dava para perceber que lagrimas escorrendo dos olhos de tanto tempo que eles estavam abertos. resolvi perguntar para uma simpática senhora o que diabos era aquele lugar. com toda a educação que minha mãe muito bem me ensinou, dei um leve toque no ombro da senhora. na ausência de uma reação, fiz o mesmo novamente. nada. resolvi chamá-la 'com licença senhora.'. nada. 'oi?' falei enquanto novamente dava um toque no ombro dela. nada. ‘huh...’ pensei. tentei mas uma vez, com um toque levemente mais forte 'comlicençasenhoraporacasoasenhorasaberiaoqueéesselugar?'. para minha surpresa, a senhora se virou à uma velocidade impressionante para alguém que, na minha noção, deveria ter algo perto de 160 anos de idade (mas eu posso estar errado.). 'o senhor não esta vendo que eu estou vendo o telão?!'. eu percebi de leve ela falando com a boca 'porra', mas eu nunca fui bom em leitura labial, então relevei.

assustado com a súbita reação da companheira, desisti e fui dar mais uma volta. encontrei outro grupo de pessoas reunidas em volta de um telão, curiosamente elas haviam arranjado cadeiras em algum canto e estavam todas quase que roendo as unhas de expectativas. me reuni perto delas e, não sei porque, resolvi ficar vendo o telão. para futuras referencias direi que fui ver o telão por peer pressure.

aparentemente me absorvi na observação do aparentemente inútil telão, porque senti que as coisas haviam mudado um pouco. a velha tinha sumido por sinal. de qualquer forma, o meu grupo de pessoas as coisas não havia mudado. nesse meu breve momento de consciência resolvi dar mas uma volta, quando derrepente o telão azul começou a apitar. todos a minha volta começaram a tremer de expectativa. por alguma razão me senti empolgado também e resolvi gritar com empolgação. por mais que meu grito tenha saído surpreendentemente desafinado, ninguém pareceu notar. o foco das atenções no momento era o telão. depois de uma serie de apitos irritantes, o telão mostrou um nome em azul. no meio do conglomerado de pessoas um homem começou a comemorar e a pular. era um ser meio estranho, provavelmente em seus 60 anos, praticamente careca mas com pequenos fios desconexos na cabeça. pele enrugada e todas as características básicas de uma pessoa velha. por sinal, a maioria das pessoas lá eram velhos, poucos tinha menos de 50 anos. mas aquele velhinho tinha uma disposição impressionante, pulava, comemorava, dançava, beijou uma outra velha que rapidamente o deu um tapa na cara, mas em meio a seu surto de felicidade ele nem reparou.

ele então começou a andar em direção a uma porta azul que por algum motivo não havia reparado antes. na porta havia um homem vestido com um elegante terno branco, óculos escuros, e com um cabelo curto arrepiado. o velho chegou para o homem e disse algo. o homem apenas confirmou com a cabeça e a porta se abriu. uma luz absurdamente forte saiu da porta. quando eu consegui finalmente acalmar minha retina, a porta já havia fechado e todas as pessoas à minha volta haviam voltado ao estado de concentração. na falta do que fazer comecei a encara o telão novamente. e mais uma vez o tempo resolveu dar um pulo, e quando percebi já se haviam passado varias horas quando voltei à realidade com um barulho de órgão que parecia vir de lugar nenhum. todos começaram a quase que tremer de medo, perto dali uma velhinha desmaiou, mas todos estavam tão ocupados e preocupados com a musica que ninguém se deu ao trabalho, ou ao menos pensou, em segurar a velhinha.

na minha frente, o telão vermelho começou a piscar, e à cada flash a tensão aumentava e a musica aumentava, quando derrepende um nome surgiu na tela. no fundo da multidão escutei um grito de um homem.

quase como em uma cena de filme, a multidão foi se separando para dar visão a um homem interessante. devia ter algo em torno de 30 anos, completamente careca, e com um olhar relativamente inocente. começou a olhar em volta em desespero. do meu ponto de vista, pude ver de cada lado da multidão, dois homens vestidos de preto começavam a abrir caminho pelo povo em direção ao homem careca. antes que o careca pudesse ter qualquer reação os homens de preto saltaram da multidão e o agarraram, um em cada braço. o homem careca começou a se debater com toda força que tinha, e aparentemente era muita, era um dos caras com a aparência mais forte que eu já havia visto, mas os homens de preto nem pareciam sentir. foram em direção à uma porta vermelha e pararam na frente dela. falaram algo com o homem de terno preto na porta, que concordou e abriu a porta. não era possível ver nada por trás da porta, era um negro tão negro, que por um momento achei que minha retina tivesse resolvido dar umas ferias. tão rápido quando com o velho a porta se fechou, e assim como com o velho, quando me virei, todos haviam voltado ao estado de concentração.

assim também como depois do velho voltei minha atenção ao telão. da mesma forma que depois do velho, o tempo passou incrivelmente rápido. não como depois do velho, um apito começou a vir do telão azul. assim como antes do velho, as pessoas começaram um frenesi de expectativa. fiquei esperando o desfecho do apito, para o processo começar todo de novo quando, para minha surpresa, meu nome apareceu.

as pessoas à minha volta começaram a olhar em volta procurando o dono do nome e aparentemente estranhando a falta de uma reação. quando percebi que buscavam o dono do nome, timidamente levantei a mão. todos começaram então a me aplaudir. estranhei imediatamente, mas, para manter as aparências, comemorei também, imitando o velho (sem a parte do beijar a velha) e fui em direção à porta azul.

lá, o homem de terno branco me cumprimentou com um sorriso e me parabenizou. agradeci, assim como minha mãe me ensinou, e, delicadamente, perguntei o porque dele estar me congratulando. me dando um susto, o homem do terno branco começou a rir, muito alto por sinal. depois de um incomodante tempo de risadas, ele se recompôs e me perguntou se estava brincando, disse que não, ele me perguntou se eu estava falando serio, eu disse que sim. ele começou a rir de novo. esperei pacientemente o fim das risadas. ele então se virou para mim e perguntou se eu sabia aonde estava. eu disse que não. ele me perguntou se eu sabia como havia parado ali. eu disse que não. ele me perguntou se eu me lembro de algo antes de ter ido parar ali. contei que estava atrasado para uma prova, e estava atravessando a rua quando do nada apareci aqui. ele me perguntou se eu sabia o que havia acontecido na rua. eu disse que não. ele me pediu para olhar minhas roupas. só então fui perceber meu estado. minhas roupas estava completamente rasgadas, sujas, e não só meu iPod havia sumido, como minha mochila também. e meu casaco. perguntei para o gentil moço onde estava minha mochila e contei que se chegasse em casa sem a minha mochila minha mãe me matava. o homem falou que isso não importava. eu expliquei gentilmente ao companheiro que importava sim e que a minha mãe quando brava era perigosa. o homem começou a me explicar o porque que não importava, mas o interrompi para contar de uma vez que eu perdi meu celular e ela me privou de saídas por uma semana, e também expliquei como isso foi um absurdo e como interferiu em minha vida social. o cara começou a tentar explicar de novo qua... e sem contar que eu tava quase para conseguir conquistar uma menina que a meses eu estava afim, e isso ferrou tudo. o moço gentilmente me mandou calar a boca e calmamente me explicou, com perturbadores detalhes, a maneira com a qual ele me chutaria até a porta vermelha. lembrando da reação do homem careca, parei de falar e fui ouvir o cara de terno branco. ele começou me perguntando se a grande alternância presente naquele lugar entre azul e vermelho significava alguma coisa para mim. eu disse que não. ele me perguntou se a reação oposta entre as pessoas que iam para cada porta significava alguma coisa para mim. eu disse que não. ele me perguntou se eu tinha idéia de algo. neguei com a cabeça. ele respirou fundo, por um tempo mais longo do que eu julgaria normal para um ser humano e me olhou nos olhos. bem, na verdade eu não sei se ele me olhava nos olhos, visto que ele estava de óculos escuros, mas eu imagino que ele estivesse. ele me contou então que quando eu estava atravessando a rua, um ônibus me atingiu. não falei nada, ele continuou a me explicar que a batida foi bem forte. continuei não falando nada. ele me perguntou se, então, eu sabia que lugar era aquele e o que havia acontecido. silencio. ele então me explicou que eu havia morrido. 'sério?' perguntei. ele concordou. 'mesmo?'. idem. 'uau'. idem com a cabeça. perguntei para ele o que vinha agora. ele me explicou que, somando o que eu havia feito de bem na minha vida, dava maior que a soma de coisas ruins. agi como se houvesse entendido. ele fez um movimento como que me perguntando 'logo...?'. esperei que ele me explicasse o que vinha logo. 'logo, você vai pro céu' ele me disse. 'é mesmo?' perguntei. 'é' ele disse. 'massa...' eu falei. ele ia começar a mexer na tela de computador quando, apenas a mérito de curiosidade perguntei o que o céu tinha para me oferecer. ele, com uma lentidão na medida certa, levantou a cabeça da direção no monitor e novamente (acredito eu) me olhou nos olhos. 'o que?' ele me perguntou. 'não' eu disse 'é porque sempre falaram que esse céu era demais, que deixava o tal do inferno no chinelo, mais eu nunca soube o porque, então eu resolvi perguntar o que tem de tão bom nesse tal de céu afinal de contas'. consegui perceber a cara de supresa-raiva-decepção-confusão na cara dele, e devo citar que essa combinação ao mesmo tempo provoca um fenômeno interessante. ele começou a me explicar então o que era o céu: 'imagine tudo que tem de bom no mundo' ele disse 'tudo junto em um só lugar. isso é o céu'. 'mas,' eu perguntei 'o que é tudo de bom?'. 'como assim?'. 'ah, é porque isso é uma expressão tão vaga, meninas acham pôneis algo bom, eu não, logo o bom delas vai estar no meu bom?'. 'não, tudo de bom pra você vai estar lá'. 'tudo que eu considero bom agora?'. 'sim'. 'mas e se no futuro eu começar a achar algo bom? ai eu vou ficar sem ele porque ele não era bom no momento que eu cheguei?'. 'não'. 'sério?'. 'sim'. 'uau'. 'uhum'. 'legal esse céu, hein?'. 'é o melhor'. 'e o que eu faço agora?'. 'apenas passe por essa porta'. 'essa azul?'. 'sim'. 'tem como desligar a luz dela, é que...'. 'não'. ‘mesmo?'. 'não'. 'sabia que esse céu não podia ser tão bom assim' e comecei a andar em direção à porta. irritadamente o homem de terno branco apertou um botão na mesa e a porta se abriu. comecei a andar em direção à luz quando minha retina aparentemente pediu demissão por excesso de trabalho e tudo ficou preto.

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acordei tremendo. minha retina aparentemente havia voltado porque consegui ver a luz forte. uma sombra se sobrepôs entre mim e a fonte de luz. essa sombra tinha um certo formato humanóide, usava uma mascara, uma toca, e um jaleco com uma plaquinha escrita Dr. blah blah blah, não lembro. comecei a ouvir um beep constante. novamente ouvia pessoas comemorando e por um momento achei que estava de volta à sala de espera de aeroporto quando senti minha mãe me abraçando e chorando. ela dizia o quanto estava feliz e que achava que ia me perder e etc. o doutor veio então me perguntar se eu sabia meu nome, e esses procedimentos médicos, e eu estava muito bem na verdade.


alguns dias depois minha mãe veio me contar como era algo impressionante como eu havia sobrevivido um tempo surpreendentemente longo basicamente morto e que por algum motivo eu havia demorado mais do que o normal para passar dessa pra melhor. ia começar a contar a historia para minha mãe quando ela veio e me abraçou e decidi que era melhor deixar para depois

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na porta azul, o homem de terno branco olhava enquanto o garoto irritante ia, finalmente, em direção a porta quando derrepente ele sumiu. simples assim. o homem de branco ficou encarando surpreso a porta por um tempo. tirou os óculos, limpou-os com a manga do terno, colocou-os de volta e olhou outra vez. o garoto tinha realmente sumido. 'cada coisa que me acontece' pensou enquanto se virava para fechar a porta e atender uma alegre velhinha que vinha saltitando em sua direção.

segunda-feira, 22 de março de 2010

(Nice Dream)

Eu estava andando com um amigo meu, Ben, a caminho de uma livraria, estávamos conversando quando ele recebeu uma ligação, então ele me avisou que a namorada dele, Agnes, e um amigo, Eli, estavam vindo nos ver. achei interessante, finalmente iria conhecer a tal Agnes. Depois de um tempo ele me avisou que eles estavam vindo, quando olhei pra rua vi Agnes e Eli e fiquei surpreso, Agnes tinha 80 anos !1! Eca. Não queria comentar nada com Ben, não sei, talvez eles estejam realmente apaixonados. qual é o problema se ele tem 22 e ela tem... 80. Estava para me despedir deles quando do nada mísseis surgem do céu e caem numa parte da cidade mais ao longe. então pensei que talvez fosse uma boa a gente sair daqui. entramos no carro e começamos a dirigir para longe dos mísseis. mas quando menos esperávamos mais mísseis apareceram atras de nós, explosões para todos os lados. foi então que percebemos que não era nossa arquiinimiga suécia, e sim os aliens atacando! foi então que surgiu um missel da nossa frente, sem pensar, pulei para fora do carro e rolei em direção à floresta na beira da estrada. quando olho para os lados vejo Agnes e Eli. mas onde está o Ben? Ele não conseguiu sair a tempo.


Isso que eu sonhei ontem.



Iago Schütte

domingo, 14 de março de 2010

tele-porte

"O Sol de Kakrafoon crescia assustadoramente na tela, seu flamejante inferno branco de núcleos de hidrogênio em fusão crescendo a cada momento enquanto a nava se precipitava em sua direção, sem ligar para os socos de Zaphod sobre o painel. Arthur e Trillian estavam vom aquele mesmo olhar fixo de coelhos numa estrada à noite, quando acham que a melhor forma de lidar com os faróis que se aproximam é ficar olhando para eles imóvel.
Zaphod deu uma volta, com os olhos arregalados.
- Ford - disse -, quantas cápsulas de salvamento temos?
- Nenhuma - disse Ford.
- Você contou direito? - gritou Zaphod.
- Duas vezes - disse Ford
Ford empurrou Artur para o lado e debruçou-se sobre o painel de controle.
- Nenhuma dessas porcarias funciona? - disse, furioso.
- Todos desconectados.
- Destrua o piloto automático.
- Encontre-o antes. Nada faz sentido.
Houve um momento de silêncio seco.
Artur estava passeando pelo fundo da cabine. Parou de repente.
- Só por curiosidade - disse -, o que significa teleporte?
Parou por um outro momento.
lentamente todos se viraram em sua direção.
- Provavelmente esse é o momento errado de perguntar - disse Artur - É só que me lembro de ter ouvido vocês usarem essas palavras faz pouco tempo e só estou falando nisso porque...
- Onde - Disse Ford lentamente - está escrito teleporte?
- Bom, logo aqui, na verdade - Disse Artur indicando uma caixa escura de controle no fundo da cabine -, logo acima da palavra 'de emergência' e abaixo das palavras 'sistema de', e logo ao lado de um sinal que diz 'não funciona'.
No pandemônio que se seguiu instantaneamente, a unica ação que vale mencionar foi a de Ford se atirando através da cabine sobre a caixinha preta que Artur indicara e apertando repetidamente o pequeno botão preto que havia nela.
Um painel de dois metros quadrados abriu-se diante deles revelando um compartimento que parecia um banheiro com vários chuveiros que tinha encontrado uma nova vocação em sua vida como loja de equipamentos elétricos. Fios parcialmente desencapados caiam do teto, havia uma porção de componentes espalhados numa bagunça pelo chão e o painel de programação caia pendurado na cavidade da parede ende ele deveria ter sido instalado.
Um jovem contador do Disaster Area, visitando o estaleiro onde a nave estava sendo construída, perguntara ao mestre-de-obras por que diabos estavam instalando um teleporte extremamente caro numa nave que só tinha uma viagem importante a fazer, e sem tripulação. O mestre-de-obras explicara que o teleporte tinha sido instalado com 10% de desconto, e o contador explicara que isso era imaterial; o mestre-de-obras explicara que aquele era o mais refinado, mais poderoso e mais sofisticado teleporte que o dinheiro podia comprar; e o contador explicara que o dinheiro não queria comprá-lo; o mestre de obras explicara que, ainda assim, as pessoas teriam que entrar e sair da nave, e o contador explicara que a nave dispunha de uma porta perfeitamente utilizável; o mestre-de-obras explicara que o mestre de obras podia ir se danar, e o contador explicara ao mestre-de-obras que aquela coisa que estava indo rapidamente em sua direção era um punho fechado. Após todas essas explicações terem sido concluídas, os trabalhos no teleporte foram interrompidos e ele foi incluído discretamente sob o item 'despesas gerais', custando cinco vezes o preço original"

Douglas Adams


Iago Schütte - faz perfeito sentido

segunda-feira, 8 de março de 2010

Babel Fish

"O peixe-babel", disse O Guia do Mochileiro Das Galaxias "é pequeno, amarelo e semelhante a uma sanguessuga, e é provavelmente a criatura mais estranha em todo o Universo. Alimenta-se de energia mental, não daquele que o hospeda, mas das criaturas ao redor dele. Absorve todas as freqüências mentais inconscientes desta energia mental e se alimenta delas, e depois expele na mente de seu hospedeiro uma matriz telepática formada pela combinação das frequencias mentais conscientes com os impulsos nervosos captados dos centros cerebrais responsaveis pela fala do cérebro que os emitiu. Na prática, o efeito disso é o seguinte: se você introduz no ouvido um peixe-babel, você compreende imediatamente tudo o que lhe for dito em qualquer língua. Os padrões sonoros que você ouve decodificam a matriz de energia mental que o seu peixe-babel transmitiu para sua mente.
Ora, seria uma coincidência tão absurdamente improvável que um ser tão estonteantemente útil viesse a surgir por acaso, por meio da evolução das espécies, que alguns pensadores veem no peixe-babel a prova definitiva da inexistência de Deus.
O raciocínio é mais ou menos o seguinte: 'Recuso-me a provar que eu existo', diz Deus, 'pois a prova nega a fé, e sem fé não sou nada.'
Diz o homem: 'Mas o peixe-babel é uma tremenda bandeira, não é? Ele não poderia ter evoluído por acaso. Ele prova que você existe, e portanto, conforme o que você mesmo disse, você não existe. QED.'
E então Deus diz: 'Ih, não é que eu não tinha pensado nisso?' E imediatamente desaparece numa nuvenzinha de lógica
'Puxa, como foi fácil' diz o homem, e resolve aproveitar para provar que o preto é branco, mas é atropelado ao atravessar fora da faixa de pedestres"

Douglas Adams



Iago Schütte - Packt Like Sardines In A Crushed Tin Box